Vítima: A SOCIEDADE

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Hoje atendi um jovem de 24 anos, filho de uma comunidade bem pobre, usuário de crack, cocaína, maconha e álcool, iniciado aos 14 anos. Foi pego pela polícia com umas pedras e, após ser julgado, foi encaminhado pela justiça para o seu primeiro contato com sistema de saúde especializado.

Dez minutos passados da consulta, a conversa rendia, me intrigava e me fazia refletir sobre o contexto social e os rótulos que aquele paciente carregava:

- É isso, Dotô… e é aquilo também.
Agora fiquei sem entender. É isso o quê? É aquilo também o quê?
É isso, Dotô… ninguém entende. Ninguém entende minhas razão, ninguém é eu. Acaba que eu viro ninguém também, entendeu?! Pode ver aí na minha ficha, aí… quem é a vítima, aí?

Embora já tivesse notado – aliás, era essa uma das questões que me intrigava – fiz o que ele havia me pedido e conferi o documento.

- Está escrito: a sociedade.
- A SOCIEDADE É A VÍTIMA? E eu não sou da sociedade também? E as minha razão? Fumei, cheirei, bebi, fumo, cheiro, bebo… fumo mermo, desde moleque. Desde moleque que eu só “levo fumo” e não tem ninguém pra me ajudar de verdade. Foi sempre rá tá tá tá… dedo na cara! Foi sempre eu de cá e a SOCIEDADE de lá.

Chamou-me atenção a ironia do processo. Apesar de eu concordar que aquele rapaz talvez potencialmente represente uma ameaça para a bela ordem social, me deparar com tal minimização e inversão, do ponto de vista que o Estado adotou para me apresentar àquele jovem, fez-me lembrar as palavras de um livro escrito por volta de 1500 D.C. Chamado Utopia:

“Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, essas jovens plantas que poderiam florescer para a virtude, e vós as matais quando, tornadas homens, cometem os crimes que germinavam desde o berço, em suas almas. E, no entanto, o que fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los.”

Inspirado no relato do Doc Lucas Argolo
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