Um presente para o interno

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Era madrugada. O estudante do sexto ano de plantão no Pronto-Socorro, um de seus últimos estágios antes de concluir o curso de medicina.

Pega uma ficha. Chama dona Maria da Silva.

Aproxima-se uma mulher com a face enrugada, roupas rasgadas, com um bastão que usava como cajado, talvez fosse fabricado para em seus dias ordinários servir para cabo de vassoura, agora era seu sustentáculo.  Na mão direita uma sacola preta daquelas de plástico ordinário. Endereço: não constava. 

O estagiário a conduz até o consultório.

Pede pra sentar, olha nos olhos, pede para subir à maca, examina, toca a pele. Pede orientação ao médico plantonista. Tratam sua queixa. Não resolveriam seu problema. Ela se sente melhor, aliviada, quer voltar para sua não-casa. 

Na despedida ela mexe e remexe na sacola de plástico e tira um presente para o seu médico, o rapaz que acabara de lhe atender. Era meio quilo de feijão carioquinha, daqueles comprados a granel, em um saco de plástico transparente amarrotado. Ele demora a responder. Pensa que não fez mais do que sua obrigação, que não merecia presente por ter tratado dona Maria como trata todos os outros pacientes que chegam cheirosos e que tem casa. Pensa que não podia aceitar receber o único alimento que a paciente tinha.

Precisava se manifestar!

Ele aperta com as duas mãos as mãos de Maria. Agradece e aceita o presente. Despedem-se. Não pode desprezar o presente. Entendeu o ato de generosidade de Maria e que provavelmente nunca mais em sua vida alguém lhe daria em agradecimento por seu cuidado tudo o que possuía.

Autor: Doc Gerson Salvador, infectologista, vive as artes da medicina e literatura como práticas de liberdade. Médico do Hospital Universitário da USP, professor de Propedêutica Clínica na Faculdade de Medicina da USP.

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