Pra refletir: minimalismo

facebooktwitterrssyoutubeinstagram

Movimento que visa conceito minimalista está ganhando mais adeptos. Estilos de vida têm como princípio identificar o essencial e eliminar o excesso

Vida simples, simplicidade voluntária, minimalismo e frugalidade, estilos de vida que têm como princípio identificar o essencial e eliminar o excesso. É possível encontrar raízes para esse pensamento no budismo, no cristianismo e na filosofia. Na modernidade, o ativista estadunidense Henry David Thoreau, em seu livro Walden, faz uma reflexão sobre a vida simples cercada pela natureza, através da experiência de anos vivendo na mais absoluta simplicidade, como uma forma de protesto contra o capitalismo. Além de Thoreau, Joe Dominguez e Vicki Robin destacam-se pelas ideias de uma vida de simplicidade e funcionalidade.

A partir do ano 2000, o minimalismo comportamental, que não está relacionado com o movimento artístico da década de 50, ganha força – “tomado a decisão, o como fazer surge naturalmente”, defendia Leo Babauta, maior expoente do movimento na atualidade. Hoje, milhares de seguidores por todo o mundo caminham na contramão do capitalismo, reduzindo consumo, reciclando as coisas e organizando tarefas para otimizar o tempo e melhorar a produtividade.

Autora do site Vida Minimalista e admiradora da cultura oriental, a veterinária e jornalista Camile Carvalho sempre leu muito sobre hinduísmo e budismo, e foi através desses estudos que ela afirma ter aprendido que não são os bens materiais que trazem a felicidade, mas sim um processo interno. Ela defende que a busca por uma vida minimalista trouxe diversos benefícios, como por exemplo, conseguir um melhor rendimento nos estudos e aumento da produtividade.

“Quando eliminamos os excessos, reduzimos também preocupações” afirma Camile, que explica também que existem inúmeras técnicas de organização e produtividade pessoal que utilizam o conceito minimalista, mas este estilo de vida não necessariamente exige a adoção de alguma dessas técnicas.

Ter maior controle sobre a vida, reduzir o ritmo acelerado e apreciar os pequenos detalhes que passam imperceptíveis na correria do dia a dia são as razões que atraíram a atenção de Camile para esse estilo de vida, mas foi na solidariedade que ela praticou efetivamente o desapego. “Quando ocorreu a tragédia das enchentes na Região Serrana do Rio de Janeiro em 2011, houve uma grande mobilização para que doássemos roupas e alimentos às vítimas. Foi nesse momento que, sensibilizada, comecei a esvaziar meu guarda-roupa, me desfazendo de tudo o que não precisava mais”, lembra.

O sofá de casa é de segunda mão, comprado de uma amiga que mudou-se do Brasil, e o armário da cozinha era o antigo armário do quarto dos filhos. Apesar de não considerar-se completamente simples ainda, a empresária niteroiense Ana Cláudia Bessa garante que a maternidade foi um divisor de águas, já que trouxe a reflexão acerca da construção de um mundo melhor e de cidadãos mais conscientes.

Ela afirma que ainda está buscando uma vida simples, e para isso tem incorporado cada vez mais hábitos sustentáveis, como reciclagem e reutilização, assim como estado atenta aos apelos do consumo desnecessário. “Olho tudo com essa preocupação, já saí de uma feira de artesanato sem consumir quase nada por me questionar se realmente precisava comprar aquelas coisas”, explica.

Para Ana Cláudia, as pessoas precisam amadurecer a ideia de uma vida boa repensando as relações de consumo. Atenta, ela opta por não fazer de shoppings os momentos de lazer com os filhos, e conta que, recentemente, toda a família adquiriu bicicletas, sem marcas de grife e compradas no comércio local, como forma de garantir exercícios ao ar livre e economia com despesas em academias.

“Existe um preconceito em razão das pessoas confundirem uma vida simples com uma vida de privações”, analisa. Mas ela garante que o consumo consciente é uma forma inteligente de se obter o que é necessário. Ana Cláudia leva para a família e para o trabalho a filosofia que defende, o site de venda que ela administra oferece produtos educativos, em sua maioria feitos de materiais reciclados, e de fabricação proveniente de cooperativas. Ana ainda milita no grupo Infância Livre de Consumismo, já que acredita que os valores transmitidos às crianças repercutem em toda a sociedade.

‘Menos egocentrismo para ver o mundo lá fora’

A fotógrafa Claudia Regina conta que sempre focou em uma vida mais simples. “Quanto mais simples a vida, mais tempo temos para viver de forma menos egocêntrica e ver o mundo lá fora, ao invés de ficarmos olhando para o próprio umbigo” afirma.

A melhor forma é desnaturalizar tudo à nossa volta, afirma Claudia, que diz estar consciente de que “não precisamos de tudo que nos falam que precisamos”. “Tendemos a ficar mais egocêntricos e pensando só nos nossos projetos, nos nossos bens, nas nossas coisas, e ainda, em como chegar nos nossos objetivos e conseguir uma vida melhor só para nós, e não para a sociedade. Indico aos que buscam a simplicidade, não se preocuparem com categorias, não entrarem numa competição por quem tem menos, e acharem o estilo de vida que combine com você”, aconselha.

E Claudia vai mais além em sua teoria: tem gente que não tem geladeira, mas se você quiser ter geladeira, não tem problema algum. O importante é se livrar do que é excesso e ter só o essencial, mas cada um tem sua própria noção do que é essencial ou não”, conclui.

“Existe um preconceito em razão das pessoas confundirem uma vida simples com uma vida de privações .”
Ana Cláudia Bessa, empresária

Doc Bob: Esta matéria inaugura a série de posts sobre minimalismo. Vamos abordar esse tema e ensinar algumas técnicas para que você possa criar o seu jeito de desacelerar o consumo desmedido.

Fonte: Ulisses Dávila  |  O Fluminense, 02/11/13
facebooktwitter

Deixe um comentário

Google+