O pior médico do mundo

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Registrado no Conselho Regional de Medicina. Apto a praticar a profissão levara seis anos para aprender. Ávido para começar a exercer a arte de cuidar, fazer diagnósticos, tratar pessoas doentes. Um colega de faculdade, pouco mais velho anunciou que precisava de um plantonista para o Pronto Socorro, um hospital de porte médio que atendia diversos planos de saúde. Quem quisesse se candidatar podia ficar tranquilo. Era sossegado!

Abracei a oportunidade. A primeira oferta de trabalho que não era nem para mim, era para quem se interessasse. Não tinha ideia de quem me contrataria, como seriam as instalações do hospital, que tipo de casos atenderia. Para ser sincero não temia, tinha uma grande segurança acerca de minha capacidade como médico! Tinha estudado recentemente sobre emergências clínicas, cirúrgicas, ginecologia e obstetrícia, pediatria. Horas, não teria caso que eu não desse conta de fazer ao menos o atendimento inicial. Além do mais era a Policlínica do Bairro. Justo no bairro em que cresci. Possivelmente encontrasse até algum amigo ou conhecido por lá, seria um prazer atendê-los. Gozava de uma segurança imprudente que só os ignorantes podem ostentar.

Véspera. Noite comprida. Me remexi na cama. Parecia nos tempos de menino quando jogava bola, no dia anterior ao início de campeonato eu não dormia, passava a noite imaginando jogadas ensaiadas, ficava cansado e não jogava nada! Naquela noite também, fiquei rememorando: se chegasse um paciente com politrauma? E se chegasse um infarto? E se chegasse um caso de violência sexual? Mexi e remexi nos meus livros e apostilas. Queria rever toda a medicina em poucas horas. Dormi depois das três da manhã.

Às cinco e trinta o despertador tocou. Pulei da cama. Banho gelado para acordar. Café forte sem açúcar. Vesti uma roupa bonita. Peguei meu avental novo, com o símbolo da faculdade numa manga e a marca de minha turma na outra. Sempre achei o símbolo da faculdade lindo. O do meu avental era verde, cor da medicina. Me ajeitei olhando no espelho, estava com olheiras, dei um sorriso e fiz uma dancinha. Chamei meu pai e minha mãe. Queria que eles me vissem saindo para o meu primeiro dia de trabalho como médico. Ela balançou a cabeça bem de levinho, me olhou com todo o carinho, ele abriu um sorriso se olharam e se abraçaram, bem forte. Fiquei feliz porque percebi que eles estavam orgulhosos. Minha mãe alisou o meu rosto, muitas vezes com a mão direita, passando na minha barba rala e mal feita. Me beijaram, me abençoaram. O sol nem tinha nascido. Eu fui trabalhar!

Cheguei quinze minutos antes para conhecer o Pronto Atendimento. Fui recebido por uma enfermeira muito gentil que me mostrou a sala que eu atenderia. Pedi para me levar à sala de emergência. Tinha um monitor, um carrinho para atendimento de parada cardíaca, material de intubação, medicamentos para emergências. Estava bem servido!

Tomei o meu assento. Peguei o meu carimbo virgem. Carimbei um receituário. Admirei o meu nome impresso com a tinta do carimbo. Fiquei contente e vaidoso. Carimbei uma folha todinha. Obra inútil, mas aprazível.
Começaram a chegar os pacientes. Nas fichas vinham pequenas tarjetas de plástico vermelhas ou verdes. Como havia poucos pacientes na primeira hora do plantão ignorei os coloridos.

Chegou a enfermeira, muito solícita.
– Você já sabe do sistema de cores das tarjetas? Vermelho, verde…
– Sei sim! Aprendi na faculdade! Verdes são casos mais simples, não tem muita gravidade, podem aguardar se for o caso. Vermelhos: casos graves, risco de vida, atender imediatamente!
– Doutor, aqui no nosso hospital é um pouquinho diferente. Sabe aqueles convênios sem-vergonhas? Baratinhos? Que não cobrem nada? Então esses são os vermelhos. Não adianta pedir exame no pronto atendimento, nem avaliação de outro médico, por que não sai. Se quiser pedir alguma coisa precisa internar, aí compensa. Os verdes, bem, sabe aqueles planos bons, que pagam bem? Então, se aparecer com ficha verde pode pedir exame à vontade, prescrever medicamento, deixar em observação no PS, é uma beleza!

Pasmo. Formação inteira em hospitais públicos, em serviços de referência. Para sair da faculdade e oferecer atendimento de acordo com o poder de compra do paciente? Dependendo do valor do convênio eu deveria oferecer cuidados diferenciados. Fiquei com vontade de sumir naquele minuto, mas não podia abandonar o plantão. Asclépio que me perdoe.

O dia inteiro atendi os casos que chegaram, sem maior complexidade. Almocei ali perto. Bem rápido. Voltei ao meu posto.
No meio da tarde chegou um paciente de cerca de setenta anos com rebaixamento do nível de consciência. Estava almoçando, tudo bem. Desmaiou. Acordou mais sonolento, gemente, não respondia a perguntas nem a estímulos. Levado à Policlínica. Eu iniciei atendimento com tranquilidade. Quantos casos de rebaixamento de consciência já atendera na faculdade? Para fazer o diagnóstico precisaria de exames: podia ser AVC, meningite, infecção urinária, pneumonia, insuficiência renal, glicose muito elevada ou muito diminuída, alteração no sódio… podia ser várias coisas diferentes, mas eu tinha condições de fazer o diagnóstico. Não tinha? Não tinha.

Ele era um vermelho. Vermelho. Eu não podia pedir nenhum exame para ele no PS.
Fiquei com raiva. Aquela situação esdrúxula que possivelmente acontecesse em diversos serviços e eu não tinha ideia de como lidar. Fui orientado pela oficial administrativa do hospital a preencher uma ficha de internação, então poderia pedir exames. Fiz a ficha. Precisava colocar o diagnóstico conforme o CID (Código Internacional de Doenças), coloquei lá Acidente Vascular Cerebral, CID I64. Estava internado, agora poderia pedir exames.

Solicitei: tomografia de crânio, radiografia de tórax, eletrocardiograma, sedimento urinário, cultura de urina, hemograma completo, glicose, provas de funções do rim, fígado, sódio, potássio, enzimas cardíacas. Pronto, dava pra começar. Se não elucidasse colheria um líquor, aprendi a fazer isso direitinho, não tinha receio de fazê-lo.

Em poucos minutos fui informado que a tomografia foi autorizada, mas que os outros exames não, a família tinha que pagá-los à parte. Como assim? O auditor não liberou, não são liberados para o CID de AVC! Quem era o auditor? Um médico! Era um colega, empregado do plano de saúde, que no mesmo horário em que eu dava plantão para tentar cuidar das pessoas ele dava expediente no plano com objetivo de conter gastos. Dá pra acreditar que tem médico que se presta a esse papel? E ele não estava auditando, não estava avaliando se os gastos eram proporcionais aos procedimentos realizados. Ele estava era negando acesso a exames que o plano teria que pagar. Pensei em ligar para ele, pro Conselho Regional de Medicina, para a polícia. Mas o paciente ali na sala de emergência, eu tinha que cuidar dele. A família pagou pelos exames. A tomografia e a radiografia vieram normais. Mesmo que fosse mesmo AVC é possível que a tomografia nas primeiras horas venha normal, não ajudou em nada. A equipe do Pronto Atendimento ficou me pressionando para levar o paciente para enfermaria, mesmo não tendo diagnóstico. Não permiti, ficaria sob meus cuidados até que o caso estivesse elucidado.

Em Brasília dezenove horas. Acabou meu primeiro plantão. Chegou o colega para me render. Era outro recém-formado. Fiquei com vergonha de passar o caso, de ter sido absolutamente incompetente para lidar com os problemas que o hospital e o plano de saúde tinham imposto, de não ter concluído o diagnóstico. Falei para o colega que a equipe do Pronto Atendimento queria levar o paciente para a enfermaria, que se eu fosse ele não deixaria, esperaria os outros exames, tentaria uma vaga de terapia intensiva.

Me despedi da equipe e da família do paciente. As filhas que o acompanhavam me agradeceram, muito. Eu falei dos problemas com o hospital e com o plano de saúde, que eu não concordava com isso, que estava sendo limitado por eles. Ambas me olharam com um olhar de cumplicidade quase caridosa e me abraçaram. Ternas. Senti-me ainda pior.

Saí do hospital olhando pro chão. Cabeça baixa. Passos curtos. Foi para isso que estudei medicina? Seis anos de estudo, dois anos de estágio hospitalar. Foi para isso? Triste, me senti o pior médico do mundo. Falei baixinho para o meu estetoscópio, único companheiro numa hora dessas: “se o chanceler Bismarck realmente disse que as pessoas não dormiriam se soubessem como se fazem jornais e salsichas é porque na velha Prússia não havia planos de saúde”.

Autor: Doc Gerson Salvador, infectologista, vive as artes da medicina e literatura como práticas de liberdade. Médico do Hospital Universitário da USP, professor de Propedêutica Clínica na Faculdade de Medicina da USP.
Ilustração: Doc Bob
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