O pepino de Quirino

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Entre fritas, bifes e saladas, a vida de Quirino – um cozinheiro de 40 anos que havia começado a carreira como lavador de pratos – seguia aquela rotina massante da casa para o restaurante onde trabalhava, do restaurante para casa. Na verdade, o andar de cima da casa de sua mãe, onde vivia com sua mulher, uma morena vaidosa de apenas 24 anos. Quirino vivia dizendo que devia tudo a culinária. A paixão pela culinária, herança materna, tinha virado profissão e, para muitos, a razão dele ter conquistado sua bela e jovem esposa.
Mas no final da tarde daquela sexta-feira, Quirino iria começar a repensar sua gratidão a culinária.
 
- Acho que é caso de Laparotomia, Doutor.  — Arriscou a R1
- Calma. Relate o caso com calma, primeiro. Depois decidimos.

- É que é meio delicado discutir aqui, assim… na frente de todo mundo. — Explicou constrangida a R1

- Por trás é que seria ainda pior, né!? — Falou bem baixinho um dos R1 que acompanhava a entrada do paciente

Nem o desconforto e duras que os demais R1 deram no “piadista de plantão” me fez perder o foco no paciente. Tratei de ler o prontuário e já quase no final, Quirino – o paciente em questão – me olhava com um constrangimento ainda maior que o pepino que estava em seu… digamos…delúbio. O contrangimento parecia viral e eu parecia ter sido infectado, mas já ia começar a passar as orientações para o caso, quando fui interrompido por uma mulher que correu em direção a maca em que estava Quirino.

- Meu nego… ô meu nêgo! Me ligaram dizendo que você infartou?!

Rapidamente, pedi que removessem a maca e me aproximei da esposa de Quirino para evitar aquele contato sem uma prévia explanação.

Confesso que não costumo me aproveitar da hierarquia de poder para fugir de pedreiras, mas não exitei em convidar a assistente social para explicar os detalhes do caso de Quirino.

Em meio a tantas voltas, papos sobre fantasias sexuais, mais voltas, a esposa de Quirino parecia não compreender o que a assistente social tentava explicar. Foi aí que com toda sutileza que lhe era peculiar, a temida enfermeira Conceição resumiu:

- Fantasia, porra nenhuma! Seu marido tá é com um pepino no rabo! E é do nacional, aquele mais grosso! Antes fosse do japonês, pelos menos evitaria uma cirurgia!

Naquele instante surgiram duas certezas e uma grande dúvida na minha cabeça. A primeira certeza é que vivíamos, de fato, uma “endemia de constrangimento” naquele plantão, a segunda é que Quirino teria que fazer o verdadeiro manjar dos deuses pra aliviar a barra com sua esposa, e a  dúvida que não queria calar: Qual seria o destino daquele pepino não fosse o empalamento?

 

 

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