Antídoto para curiosidade

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Os plantões naquela cidadezinha de zona rural costumavam ser tranquilos, embora o hospital fosse referência na região. Era aquele plantão tipo “sono remunerado”, sabe?! Pouco movimento, casos simples. Gente simples de um lugar simples.

Eu não podia imaginar, mas naquela madrugada a “jiripoca iria piar”, ou melhor: a “cobra iria fumar”! Já passavam de três da manhã quando um homem que havia sido picado por uma cobra, amparado por sua mulher, deu entrada no PS. Seu filho, um rapaz magro de jeito tímido e bigode ralo, segurava uma caixa de papelão com um certo ar de heroísmo. Provavelmente, por ter sido ele o autor da brava captura da tal cobra, conclui.

- Tá aí, “Dotôra”! Ela tava meio arisca, mas meu “minino” pegou a danada de jeito. Não foi, Antônio Carlos, conte pra “Dotôra”.

Mesmo olhando pra baixo, o rapaz confirmou balançando a cabeça.

- Mostre a cobra pra ela. Mostre logo essa cobra, “minino”. Ela tem que ver a cobra, né “Dotôra”?

Ainda mais envergonhado, o rapaz deu um riso contido, mas suficiente pra revelar que via malícia no pedido da mãe.

Foi então, que abriu a caixa e a direcionou pra mim.

- Hummm… precisamos identificar a espécie, mas tá meio difícil. Preciso consultar um colega e já volto.

Antônio Carlos esboçou uma reação quando peguei a caixa de suas mãos, como se quisesse me dizer algo ou como se desaprovasse minha petulância em retirar de suas mãos seu troféu de bravura. Independente da razão, se conteve e só me passou a caixa.

Invadi a sala de descanso em busca da opinião do meu colega, mas como não consegui ascender a luz segurando a caixa, resolvi acomodá-la na mesa de estudos e retornei para o interruptor. Após ascender a luz, fui direto até a cama em que meu colega estava para acordá-lo.

- Psiu, psiu! Acorda, rapaz! Preciso da sua ajuda. Preciso que tire uma dúvida.

Como é natural acordarmos levemente atordoados, sugeri que ele ficasse na cama e de lá mesmo tentasse me ajudar. Ao virar em direção a caixa, tomei aquele susto e não pude conter o grito:

- Ahhhhhh!!! Ela tá viva!!! Cadê a ela?!

Foi a deixa para meu colega gritar de desespero ao mesmo tempo que saltava da cama superior do beliche (Quase um duplo twist carpado! Ninguém tira da minha cabeça que aquela cena aconteceu em super slow motion).

- Ela quem?!!!

- A coooobra!!!

A essa altura a cobra já estava em posição de bote e o hospital inteiro na porta da sala de descanso. Ao sairmos da sala, nossos gritos desesperados de alerta serviram como antídoto para a curiosidade de quem se aproximava. Foi uma correria generalizada pelos corredores do hospital.

Felizmente, nosso herói de plantão estava no plantão. Antônio Carlos invadiu a sala e conseguiu capturar a dita cuja e tranquilizar a todos.

 

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Um comentário
  1. Juliana

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