Abraço quentinho

facebooktwitterrssyoutubeinstagram
Era uma tarde de um tempo de um frio julho. Chegou no pronto socorro infantil do Hospital da Universidade uma bebê de três meses com desconforto respiratório.
O pai tivera diagnóstico de tuberculose pulmonar havia poucos dias, bacilos quatro cruzes.
A criança foi colocada em observação na tenda de oxigênio, sob isolamento respiratório.  Aguarda pesquisa de bacilos. Frio julho.
Passam as horas, a partir das dezenove troca a turma dos internos de plantão, os médicos-estagiários com certas caras de crianças. Foi a interna do quinto ano quem percebeu através do vidro da porta de isolamento que a criança não se mexia, estava roxinha!
O coração acelerou. Ela ainda não sabia agir como médica. Balbuciou um pedido de ajuda: eu quero meu assistente! Entrou no isolamento respiratório sem máscara e percebeu a paciente azul, encolhida, parada cardiorrespiratória?
Vontade de chorar. Não se recolhe!
Ela pega a criança, percebe que está gelada abraça apertado, encosta no peito com uma cobertinha. E corre para a sala de emergência talvez por não saber o que fazer.
O caminho parecia infinito, talvez uns doze metros.
Azul.
Ciano.
Roxo.
Violeta.
Vermelho.
Rosa.
Rosa! 
Era hipotermia.
Há essas massas polares que envolvem as pessoas. 
Antes de chegar à sala de emergência, antes que chegasse qualquer ajuda, a criança ficou quentinha no colo dela, se mexeu, gemeu, fez barulhinhos estranhos com a boquinha e deu um sorriso social.
Como é lindo esse desenvolvimento neuropsicomotor!
Autor: Doc Gerson Salvador, infectologista, vive as artes da medicina e literatura como práticas de liberdade. Médico do Hospital Universitário da USP, professor de Propedêutica Clínica na Faculdade de Medicina da USP.
Ilustração: Doc Bob
abraco-quentinho-docbob
 
facebooktwitter

Deixe um comentário

Google+